[Sessões] Comunicações livres 13 – O discurso das mídias: ciência e feminilidade na imprensa

Por Rafael Ciscati

O jornalismo científico e a imagem da mulher nas revistas brasileiras – em torno desses dois eixos, giraram as discussões desta tarde, durante a Sessão Comunicações Livres 13. Sob a mediação de Antonio Marcos Pereira Brotas, da UFBA, os pesquisadores apresentaram resultados e discutiram o andamento de seus trabalhos, baseados em metodologias calcadas na análise de discurso.

Saber que o fazer científico não é isento – é o que orienta a investigação de Lia Luz, ao analisar “As vozes no discurso jornalístico das matérias de saúde de Veja e Time”. Para ela, a imprensa deveria expor os interesses econômicos imbricados no setor de saúde, tema jamais abordado. Nas publicações, ao contrário, predominam matérias cujo intuito é divulgar novos medicamentos. Entre janeiro e julho de 2005, 30% das matérias de Veja seguiram essa orientação.A escolha das fontes reflete essa tendência – 60% delas correspondem a laboratórios farmacêuticos.

As pautas de Time, por seu turno, não incluem novidades da indústria-  são privilegiadas fontes acadêmicas, ligadas ao ambiente universitário. No entanto, ambas deixam de lado questões essenciais: a contextualização, os jogos políticos. Sem isso, diz ela, tem-se um “jornalismo meio travestido de publicidade”.

Ciência e tecnologia: uma abordagem não científica da grande mídia, de Luciana Rosa, faz uma comparação entre as maiores revistas de informação em circulação no Brasil (ISTOÉ, Veja, Época e Carta Capital), entre outubro de 2008 e março de 2009. O objetivo: traçar um diagnóstico da cobertura de ciência e tecnologia nesses veículos.

Segundo ela, a imprensa busca aproximar-se do leitor por meio de um vocabulário coloquial, e da apresentação simplista dos temas: “Raramente você vê em uma matéria a explicação da metodologia de pesquisa”.

 Concordando com Luz, Rosa enfatiza o predomínio do mercado – trabalha-se muito com a industria farmacêutica, sem que se invista na construção de um conhecimento.

 Gabrielle Vivian Bittelbrun, por sua vez, busca evidenciar qual a imagem da mulher construída pela Revista Claudia. Seu trabalho, A Contemporaneidade e a mulher brasileira em Claudia: o papel da beleza, demonstra que o jornalismo praticado pela revista é “um jornalismo de direcionamento – sugere perfis de como a mulher deve ser.” Segundo ela, Claudia acompanhou as modificações sofridas  pela mulher ao longo dos anos: a liberalização dos hábitos sexuais e o ingresso crescente de mulheres no mercado de trabalho. Atualmente, ao lado das capas ousadas, nas quais sempre figura alguma matéria relacionada a sexo, a revista dá dicas de como ser bem-sucedida no mercado de trabalho. Mas sofre uma crise de identidade: seu slogan atual (“Independente sem deixar de ser mulher”) demonstra que ainda persiste certo tradicionalismo, como o apreço pelos cuidados com a aparência  e a valorização da família patriarcal.

 Mas qual seria o papel do jornalista no meio científico? O jornalista como mediador na cultura científica, de Antonio Marcos Pereira Brotas, defende que o problema não é a pauta, mas o enquadramento: “Não vejo problema nenhum em ter um remédio novo como pauta. Mas o jornalismo não é só isso” – ele deve questionar, discutir, contextualizar, de modo a entender quais os jogos políticos e econômicos em questão.

A comunicação na área de saúde para favorecer o bem-estar da população- é esse o plano de fundo de  O enquadramento do câncer de mama no jornalismo e na ciência,  de Sônia Regina Schena Bertol.  A pesquisadora analisa artigos de publicações especializadas em ciência, contrapondo-os a artigos publicados na mídia “leiga”. Ambos os meios orientam-se pelo conceito de novidade , examinando os dados  de maneira meticulosa antes de expô-los  ao público. A diferença reside no fato de que,no meio científico, esse exame baseia-se em experimentos e na aprovação pelos pares. No jornalismo, diferentemente, a informação é notícia desde que corresponda a algo novo, inusual. São portanto, discursos distintos, que por vezes se distanciam. 

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